CARTAS DO LADO DE CÁ

Imagem da capa: Shaun Bell via Unsplash
Publicado em 4/02/2021 – Atualizado em 11/02/2021

Escrever cartas e trocar com alguém é um exercício usado nas aulas de escrita criativa de Cris Piloto.
Cris e André, dois cariocas praticantes da escrita livre e criativa trocam cartas toda semana!

Eu de Veneza e ele do Rio de Janeiro. Com bom humor e pitadas culturais, essa dupla mostra como é bom manter a tradição de escrever cartas e compartilhar as vivências do dia a dia.

 


Veneza, 4/02/2021

Oi André,

Espero que esta carta te encontre bem e com o coração cheio de histórias para contar. Por aqui, está tudo certo, na medida do possível vista a situação que estamos vivendo!

Eu me sinto muito bem, as manhãs no Vêneto durante o inverno são uma experiência mágica, bucólica e quase de outro universo. Para nós, cariocas que crescemos e vivemos num país tropical, vivenciar o inverno com uma despedida efêmera do outono é uma experiência muito diferente e intensa. O frio da neblina é tão desafiador que não nos encoraja sair de casa e passear pelas vielas desta cidade com 100% de umidade do ar. Logo cedo, aprecio o frescor matinal perto da janela e deixo entrar um pouco dessa mística neblina para se misturar com o cheiro de café pela casa. O gato me olha e se espreguiça e a gente troca algumas palavras. Sabe como é interessante que os gatos entendem o que falamos pelo tom da nossa voz e não pela língua que nos comunicamos? Eu percebi isso com o Yoda! Ele entende italiano e português e sabe reconhecer muito bem o meu humor e os meus comandos. Os gatos são realmente seres muito evoluídos, você não acha?

Dia desses eu tive que fazer um pequeno procedimento na minha pele. Eu descobri no fim do verão que uma feridinha que eu tinha na testa evoluiu e cresceu. Ela inflamou, saiu sangue e eu não dava muita bola… Até que um dia, meio por acaso, um farmacêutico me chamou a atenção dizendo que poderia ser algo mais grave e aí eu comecei todo um processo de buscar um médico, fazer a consulta… enfim, essas coisas chatas que a gente tem que fazer na vida! Mas, pra resumir e te contar, eu tive que cauterizar essa e uma outra ferida que já estava nascendo e a médica fez esse procedimento sem anestesia. Me machucou um pouco porque a posição da testa é muito perto do osso e faz com que seja mais dolorido. L É muito desconfortável ter que mexer qualquer coisa no crânio, né?? Agora eu tenho que cuidar, acompanhar com a médica e eu passei a usar protetor solar mesmo dentro de casa e fazer uso de chapéu durante o dia. Imagina, virei uma pessoa que só sai de casa de chapéu! É estranho, mas dá pra acostumar até porque com o frio a gente usa sempre qualquer coisa para proteger a cabeça.

E você por aí?? Como está? Me conte um pouco o que fez de novo nesses últimos dias.

Te desejo um ótimo dia, um fim de semana em paz e que a gente se conecte de novo em breve!

Um abraço com carinho,

Cris


 

Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 2021

Oi Cris, Bom Dia!

Quanto as minhas histórias, não se preocupe: meu coração vai estar sempre cheio delas e de muitos sonhos! Quem ama, sonha e vive muitas histórias. Eu amo de muitas formas. E tenho muitas histórias. Acho que você já sacou isso. No mais, eu estou legal. Na medida do possível também.

Como bom carioca vivo o verão. Sempre sem camisa, descalço, trabalhando, trocando e encontrando muita gente. Gente é bom pra afastar a solidão.

Tenho ido muito à praia, tomando banho de sol. Tomo banho de água doce e fresca da mangueira no jardim. Rego as plantas que estão exuberantes ao entardecer, adubadas com a energia da minha mãe. O frio me deprime. Não gosto de ficar em casa entocado. Não gosto de jardins cinzentos, nem vento, nem umidade. Gosto do sol, do mar, do sal, do verde e de ver muitas coisas. Sou um carioca muito apegado a esse ambiente quente aqui da gente.

Nunca pensei com você, falar coisa assim tão banal, mas também tão importante como do mundo animal. Eu AMO bicho. Vejo todos os programas da Net Geo, Discovery e Animal Palnet. Vejo tudo sobre o comportamento animal. Vivo uma vida de paixão por cavalos árabes. Tive muitas raças de cães e mais recentemente um gato. Um gato vira-lata. Gato é muito especial mesmo. Tem uma parada de intuição, de se esfregar no corpo da gente onde as energias não estão. – Tô ligado que gato é meio místico também. Adoram os doidões. Ficam com a gente de boa. Só faltam pedir pra “dar um dois”. Aprendo muito com os bichos. Na verdade, somos todos. Cada um, um bicho diferente. E todos evidentemente iguais.

Voltando à sua pergunta, ultimamente tenho feito tanto do mesmo, que até me perdi no tempo. Viajado no fundo da alma, descrevendo o que tem dentro. Parecia sombrio e temerário, mas encarei e segui. Acabei dando em atalhos, que nunca antes me vi. Eu os vi a vida toda, mas evitava os seguir. Neles me sinto sozinho. Mas, sozinho tenho que ir.

Deixa a tristeza de lado! Quero falar de você: Quando “Googuei” na internet, te vi com um arranjo lindo, meio havaiano, de flores coloridas na cabeça, e você falava de cabelos, movimentos de braços e as nuances de sentimentos

Chapéus, penteados, arranjos… caprichosos detalhes que você vai ter.

Vou ficando por aqui, esperando você responder.

(manda e-mail, pra chega logo!)

Bom dia e um lindo sol pra iluminar você.

André


Veneza, 6 de fevereiro de 2021

Oi André, que alegria receber a sua resposta!
Eu estou bem, mas confesso que um pouco chateada porque semana que vem seria o ‘Carnavale di Venezia‘ e este ano, por conta da pandemia, foi cancelado como outros festejos populares e como em outros lugares do mundo! O Carnaval de Veneza é uma experiência muito diferente do que conhecemos de carnaval e quando eu cheguei aqui há 3 anos era o período dessa celebração histórica veneziana. Parecia que era uma festa feita pra mim, que Veneza me esperava cheia de cores e alegria! Eu sei que é clichê a gente falar de clima, mas obviamente que a primeira coisa que fiquei logo impressionada foi a questão da indumentária. Carnaval abaixo de zero ‘pede’ muita roupa e desde sempre essa celebração na Itália é caracterizada por longos vestidos, capas de veludo e máscaras. Além da brincadeira e da diversão dessas fantasias, elas protegem do frio e da umidade do ar.
Como disse, foi num carnaval que que parti do Rio de Janeiro para a minha aventura veneziana, essa mudança de vida que eu decidi fazer antes dos 40 anos. Eu deixei o Rio de Janeiro com mais de 40 graus para a friagem de -2 em meio ao Carnaval, cheio de pessoas pelas ruas, misturadas entre ricaços do mundo todo que chegam na cidade para se divertir vestindo-se como um nobre veneziano do século 16 até as crianças das escolas públicas que incluem locais, pessoas simples e imigrantes. Eu gosto muito dessa magia de festas democráticas e mesmo a forma de vivenciar o carnaval por aqui ser muitíssíssimo diferente da nossa no Rio, a coisa em comum que existe é essa democracia. Eles têm festas aqui em palácios nobres que chegam a custar 500 euros a entrada por pessoa (como disse é para ricaços de várias partes do mundo) mas também tem as festas de praça, com crianças jogando confete e serpentina fantasiadas com roupas quentes do inverno. A grande diferença para mim é a questão da música. O carnaval por aqui não tem muita cultura da música popular de rua e sim caixas de som com uma playlist pré preparada.
Ano passado, foi no sábado de Carnaval que recebemos a notícia do primeiro caso de morte pelo COVID-19 na Itália e imediatamente a festa foi cancelada, os turistas foram orientados a voltar para as suas casas e toda questão do fechamento de fronteiras e restrições começaram a fazer parte das nossas vidas. Eu estava bem no centro histórico de Veneza fazendo fotos de uma cliente brasileira quando ouvimos a notícia desse falecimento e depois dali nada mais foi o mesmo nas nossas vidas…
Eu espero sinceramente poder voltar a viver um Carnaval com alegria e despreocupação, seja em Veneza, no Rio ou em qualquer lugar! Afinal de contas o Carnaval também serve para isso, né?! Para ser o nosso momento de diversão e deveria ser sem grandes traumas!
Eu discordo de você que falar de animal seja banal! Temos muito a aprender com eles e quando colocamos atenção em certos assuntos, a nossa mente se expande e criamos mais referências e conexões!!! Deixe de lado a ideia de ‘banal’ e vamos que vamos trocando ideia e construindo esse nosso ‘canal’ (hahahah tentei fazer uma rima mas ficou meio sem sentido, mas tudo bem se é pra falar de frivolidade). Então me diz, o que você acha que pode parecer banal mas pode ser importante??
Te desejo um ótimo fim de semana, com muitas produções da arte da narração!
Até mais,

Rio, 11 de fevereiro de 2021.

Oi Cris, que cartinha carnavalesca esta! Gostei e vou te falar já já sobre o que pensei e pesquisei, porque carnaval sempre foi muito importante pra mim também.

Quanto ao banal, não esquenta. Foi só pra fazer uma rima. Hoje, um cara me mostrou que nada é banal.  Nem mesmo a forma de amar de um orgulhoso girassol. Que tudo pode inspirar, encantar e alguma coisa te dizer (poderia ter escrito falar, só pra mostrar pra você, o quanto eu gosto de rimar).

Estamos no carnaval aqui no Rio. Se não fosse a pandemia já tava rolando bloquinho. Eu amo carnaval! É a celebração da orgia, dos prazeres e da perversão. Calma… isso foi o que vi no google, mas era, mais ou menos, o que eu já sabia.

O carnaval lá na idade média era uma tradição em que prisioneiros, tomavam o lugar do rei e reinavam por alguns dias e faziam festas carnavalescas. Em outros lugares e outras épocas os escravos também trocavam de papeis com seus os senhores. Uma forma de compensação divina, algo assim. Mas os caras quando assumiam, “quebravam tudo” e faziam aquelas festas! Depois veio a igreja com a quaresma e aí a galera sabendo que ia ficar quarenta dias sem carne, enfiava o pé na jaca e já mandava junto um vinho, cerveja e, mais recentemente vodca com MD, que ninguém é de ferro. (imagino o que rola nessas festinhas de 500 pau dos ricaços que você não foi).

Eu adorava carnaval. Me fantasiava de grego, pirata, homem das cavernas e ia a festas e ensaios de escola de samba. Eu vivi muito intensamente o carnaval aqui do Rio. Salgueiro, Mangueira, Vila Isabel, Formiga e Borel. Vivi muitas experiências legais em meus muitos carnavais. Era bonito e poético. O samba, os blocos e a alegria lançada em perfume, confetes e serpentinas. 

Agora pra mim carnaval é business. Grana! Antes da pandemia, a gente fazia lá na Lapa um carnaval alternativo. Com música eletrônica e DJ´s. Eu não curto essa vibe não, mas a galera fica no êxtase fritando com acordes eletrizantes até às dez da manhã. A gente botava três mil pessoas na rua. Agora, esse ano não vai rolar nada.

Mas carnaval é muito isso mesmo. Muito democrático, as pessoas se fantasiam do que gostariam de ser, bebem, dançam se abraçam, se beijam como se o rei ou o senhor fosse chegar e logo retomar seu lugar. É o momento de explodir de alegria, depois de um ano de tristeza, viver uma grande euforia.

Minhas experiências não foram tão românticas quanto as suas. Ou foram.

Quanto ao seu desafio do “banal importante” gostei e já topei! Mas vi que tenho muito a aprender com trio que você falou. Comecei a ver umas coisas aqui e, nossa! Tem muito que viajar. (Depois o doidão sou eu) impublicável.

Te mando alguma coisa em breve. Beijos

André.

P.S. Não pensa mal de mim pelas dançarinas de sainha de babado não.

 


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